A Geração em Extinção

Há uma geração que caminha silenciosamente rumo ao esquecimento — não por falta de importância, mas porque foi a última a viver um mundo que já não existe mais. Nascidos entre os anos 70 e 80, somos filhos de uma era analógica, sobreviventes do tempo em que a vida era mais lenta, mais tátil e mais real. Somos a geração que cresceu sem internet e sem celular, mas, com diversas outras experiências que transitavam pelo coração, produzindo dezenas de memórias afetivas, e moldaram nosso caráter, nossa criatividade e nossa forma de ver e viver o mundo. Naquela época, nem sequer podíamos imaginar que aquilo tudo, teria um fim.

O Tempo e a Rua

A rua era a extensão do quintal de casa. Apartamentos eram raros. As calçadas eram nossas banquetas para descanso. A guia era escolhida pela altura. Os muros eram nossos pontos de encontro, e os portões das casas, os limites entre os mundos. Pular corda, jogar bola com chinelo como trave, brincar de pique-esconde até o céu escurecer. Ninguém precisava marcar nada por mensagem: era só aparecer na casa do amigo e gritar seu nome no portão. O grupo era real. As conversas não tinham acelerador. E, quando alguém era mais lento para conversar, a saída era ter paciência. Na rua, o tempo era implacável. Não tínhamos controle sobre ele, e ele passava muito rápido. Quando a gente se dava conta, já tinha escurecido. Quando a gente se dava conta, a gente já tinha crescido.

Os Sábados na Sessão da Tarde

Crescemos assistindo filmes repetidos na televisão e achando o máximo. “Curtindo a Vida Adoidado”, “Os Goonies”, “De Volta para o Futuro” — cada um deles era uma aventura mágica que assistíamos de novo e de novo, como se fosse a primeira vez. A televisão tinha horário para tudo, e a programação tinha que ser dividida conforme a faixa etária. Na hora do jornal, ninguém mexia nos botões; na hora da novela, ninguém se atrevia a conversar. Para quem era criança, tinha que esperar o intervalo entre as programações importantes para poder usufruir.

O Som da Agulha no Vinil

Quem viveu essa época sabe o que é colocar um disco e ouvir o leve chiado da agulha encontrando o sulco. A música não era uma trilha sonora de fundo, era um evento. Gravávamos fitas cassete da rádio, esperando o locutor parar de falar, rezando para conseguir o “take perfeito”. E cada fita tinha uma história, cada canção marcava um momento. Aquele cheiro característico; um lápis sempre à mão para desenroscar quando necessário.

A Magia do Papel: Cadernos caprichados, papel de carta colecionável, papeis de bala e bombom, revistas.

A Espera Era Parte da Vida: Esperávamos o domingo para ver o programa favorito. Esperávamos a novela começar. Esperávamos uma carta chegar. E nessa espera, aprendíamos a lidar com o tempo, com a ausência, com a expectativa. Não havia gratificação imediata, e talvez por isso valorizássemos tanto cada pequena conquista.

A Escola Era uma Segunda Casa

Lancheira térmica, estojo com muitos compartimentos, cheiro de lápis de cor novo. O plástico para cobrir a carteira e aquele cheirinho…Tínhamos professores que eram quase figuras paternas ou maternas; alguns, lembramos com saudade; outros, nem tanto. As excursões escolares eram verdadeiros eventos. Havia canções ensaiadas: motorista, motorista… A gente nem lembra muito bem dos passeios, mas do percurso, não tem como não lembrar. era muito desafiador, estar longe da família. Medo e coragem ao mesmo tempo; orgulho e timidez. O respeito fazia parte da vida, mas não sabíamos muita coisa sobre bullying e empatia.

A Transição do Mundo

Fomos a última geração a viver uma infância offline e a primeira a entrar na vida adulta com a internet. Vivemos o salto do telefone fixo para o celular, do disquete para a nuvem, da locadora de vídeo para o streaming. Aprendemos a escrever cartas e depois e-mails. Dançamos lambada, depois ouvimos grunge, depois vimos o mundo virar eletrônico. Fomos analogicamente formados e digitalmente adaptados.

Somos uma geração em extinção, não no sentido biológico, mas cultural. Somos o elo perdido entre dois mundos. Guardamos na memória um tempo em que tudo era mais simples, mas também mais intenso. Temos saudades não por nostalgia vazia, mas porque sabemos o valor do que se perdeu: o tempo sem pressa, os vínculos sem tela, o afeto sem filtro.

E talvez, só talvez, seja nossa missão manter vivas essas memórias. Não com melancolia, mas com a certeza de que vivemos uma época tão ricamente criativa, que nos conduziu para o que vivemos hoje.

E você, do que mais sente saudades?



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