O tempo me tocou

Tudo em Mim Está Diferente

Recentemente, completei cinquenta anos. Venho observando mudanças significativas em meu corpo, mudanças essas que me exigem mais esforço para manter um estilo que me deixe confortável.

As roupas parecem se rebelar em meu corpo. Sempre que passo em frente ao espelho, observo os ombros e uma voz interna me alerta: erga os ombros! Mantenha a coluna ereta. Parece que estou encurvando e isso, aas vezes, me assusta.

Não é que não queira envelhecer. Até porque, já entendi que não é uma escolha. É uma dádiva. Mas, estou lutando para ter dignidade. Já fiz isso em outras vezes (lutar para ter dignidade).

Quando solteira, lutar para ser respeitada, enxergada, valorizada.

Quando casada, lutar para ser respeitada, ouvida, valorizada.

Quando jovem, lutar para ser respeitada, ouvida valorizada.

E agora… Bom, agora continuo lutando. Mas, com uma vantagem: experiência e sabedoria. A luta é por mim mesma. Agora, eu me respeito, eu me ouço e me valorizo, independentemente dos outros fazerem o mesmo ou não.

Meu corpo mudou, minha idade avançou, mas, por algum motivo que não consigo entender, minha mente, meus pensamentos e comportamentos caminham mais lentos, ainda que na mesma direção.

O Tempo Me Tocou

Depois de comemorar meu meio século de vida, durante este primeiro ano, fui entendendo o meu novo lugar no mundo. Há tempos eu sentia o tempo tocar no meu ombro, porém, eu ainda não tinha olhado para ele. Porque não sabia muito bem o que iria encontrar.

Percebi que chegar aos cinquenta anos foi como atravessar um portal silencioso. Não houve fanfarra, nem placas luminosas. Mas, de repente, embora tudo em mim continuasse igual, aos poucos, fui notando o que realmente estava ficando diferente.

Os hormônios dançando em ritmos novos, me colocaram em situações muito desconfortáveis, pesadas mesmo. Notei que o entorno se incomoda muito com os sintomas do envelhecimento. Enquanto eu estava lutando comigo mesma, vencendo as noites mal dormidas, enfrentando os calores enlouquecedores, lidando com a falta de muita coisa que nos torna mulheres aceitáveis e aptas a conviver com os demais, atravessei obstáculos de incompreensão e insistência para eu voltar a ser o que era antes de começar a envelhecer.

No final das contas, a luta mais difícil é essa.

Eu quero me encontrar dentro de mim mesma, e essas interferências atrapalham a busca. Quero me entender nesse novo papel, olhar para mim com o olhar de alegria que eu sempre olhei antes, em todas as outras fases que também tinham obstáculos a vencer. Não tem nada de mal em envelhecer.

O espelho revela a minha trajetória

Não vou negar que encarar o espelho começou a ser complicado. Não por falta de aceitação. Mas, por exigir coragem, porque o espelho nos devolve uma imagem que carrega histórias, marcas e um tipo de beleza esculpida pelo tempo. Uma beleza que não é evidente, um tipo que precisa ser encontrada.

Mas, ela está lá. Não é daquele tipo escancarada que todo mundo enxerga; é de um tipo diferente. Quando começam a enxergar, mal conseguem definir. É algo subjetivo. Inspirador. Ela surge e brilha.

Saúde mental

Faço terapia e tenho aprendido coisas muito valiosas. Por exemplo, entendi como definir a culpa, essa emoção extremamente complexa: existe a culpa que você sente pelas suas ações ou pela falta delas, e existe a culpa que você sente porque alguém te fez sentir-se assim.

São culpas muito diferentes e, muitas vezes, não temos noção disso. Eu mesmo, não tinha. Aprendi a lidar com isso.

  • Reconhecer: nomear o tipo de culpa já foi um passo poderoso pra eu me sentir melhor e mais leve;
  • Refletir: entender de onde ela vinha. Se era eu que cultivava ou se alguém me fazia sentir assim;
  • Reparar (se possível): Entendi que devia pedir desculpas sinceras e mudar as atitudes que me levaram a agir de maneira injusta. A culpa dissipou.
  • Liberar: algumas culpas precisam ser simplesmente deixadas para trás, principalmente aquelas que as pessoas colocam sobre nossas costas.

A culpa pode ser um convite à consciência, mas, nunca deve se tornar prisão, ou uma ferramenta de manipulação.

Também tenho aprendido muito sobre a felicidade. Embora todos tenhamos o desejo de sermos felizes, a felicidade é mais sobre ação. Ela depende muito disso. De um passo adiante ou, quem sabe até, um passo para trás. No fim das contas, é lá na frente que nos encontramos para desfrutar.

A sociedade

Sabe, eu percebo que as pessoas estão muito perdidas. Buscam coisas o tempo todo, falam demais, querem ter a razão sobre assuntos que sempre serão vistos de maneiras muito distintas. Não há consenso em nada.

Penso cá comigo que, só o fato de eu me autoconhecer e não fazer volume em certas camadas, já estou contribuindo com uma sociedade melhor. A essa altura, já vivenciei diversos movimentos sociais, com títulos engajadores e enganadores, que, eu te juro, não contribuíram com absolutamente nada. Alguns, ao contrário, só pioraram as coisas.

 E, no final das contas, o que concluo é que, se de fato, cada um não fizer a sua parte, nada evolui para melhor. Nem nós mesmos. Não entendo como há pessoas que vivem tanto e nada aprendem, ou, se aprendem, não aplicam.

De que adianta tanto viver e em nada contribuir.

Olho para dentro, clareio os pensamentos e tento escrever novas histórias a partir de agora.


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